CRUXIFIQUEM-ME
Sim,
preguem-me numa cruz, como fizeram ao JC há 2000 anos!
Não que eu
tenha pretensões a ser um novo JC, nem pensar nisso. Mas também não sou nenhum
ladrão como os que o rodeavam.
Sou um
simples homem, com todos os defeitos de qualquer comum mortal, talvez, segundo
alguns, mais que o normal.
Virtudes?
Acho que as consigo contar pelos dedos de uma só mão, de tão escassas.
Não, nem uma
encontro…
Vá, força,
amarrem-me e preguem-me à cruz!
É um pecado
enorme, uma coisa horrenda, esta coisa de querer alguém após ter ficado viúvo. Isso
não se faz!
Ainda por
cima uma brasileira… Oh… uma brasileira… oh…
Se fosse uma
portuguesa, que ela fosse prostituta, ladra, assassina, isso seria de somenos importância.
Agora uma brasileira… Que pecado capital!
Não importa
que tivesse dedicado inteiramente quase 26 anos da minha vida a uma mulher que,
por pouca sorte minha e maior infelicidade dela, me deixou, partiu para de onde
não se volta, de onde não há retorno.
Não importa
que tenha dedicado a 4 filhos maravilhosos todo o empenho de Pai e de Amigo.
Que tenha feito por eles o que podia e o que não podia, e continue com a mesma
atitude.
Não estou a
querer cobrar nada, apenas a constatar factos.
Não importa
que seja um trabalhador respeitado pelas chefias e pelos colegas, desde há
quase 41 anos na mesma empresa.
Nada importa
do que tenho feito de bom, nada conta.
Apenas conta
o facto de querer refazer a minha vida com alguém que eu quero e que me quer
muito.
Então isto é
coisa que se faça?
Querer ter alguém
por companhia para a vida? Querer alguém para compartilhar tristezas e
alegrias? Não querer estar só? Isto faz-se??
Não, não se
pode fazer!
Tens que
pedir autorização a todos: à família, aos vizinhos, ao padeiro, ao leiteiro, ao
correio, a todos pedir humildemente que te deixem tentar ser feliz de novo, ter
uma nova vida.
Sim, porque
eu sou um pobre coitado, nada tenho de meu!
Não sou dono do meu nariz!
Nem a porcaria
das meias que calço pela manhã são minhas!!!
Pois então,
força!
Amarrem-me
bem amarrado a essa cruz, e depois cravem-me cavilhas bem grandes nos pés e nas
mãos de modo a que eu não possas soltar-me.
Não tenho
medo, força, vamos! Façam isso!
Eu
sobreviverei!
Não, nada
disso…
EU VIVEREI!!!!


