Um sonho
O brilhante
disco do Sol descia no horizonte. Já se misturavam os seus raios amarelos com o
azul do mar, formando uma nevoa vermelha, oh, mistério da natureza.
Lá, tão
longe.
Deitei-me na
areia, sentindo-a a moldar-se a meu corpo. Fechei os olhos, ofuscados pelo
brilho do astro-rei, tentando não me deixar embalar por aquela luz. Queria a
minha escuridão.
Mesmo assim
a sua luz teimava em romper as pálpebras.
Um suave
ranger de areia… algo interrompe o fluxo da luz em meus olhos, uma sombra… uma
nuvem, pensei.
Mas as
nuvens passam silenciosas, não calcam a areia.
Não quero
saber, pensei. Que passe e me deixe aqui, à espera de quem não vem.
Não passou,
ficou.
Abro
lentamente os olhos, preparando-me para pedir que se afaste.
O sol
impede-me de ver claramente quem assim me incomoda.
Lentamente,
uma forma humana se revela à minha visão.
Distingo-a pela
cabeça, moldada por uma abundante cabeleira, de cabelos lisos que escorrem da
cabeça e se lançam à procura das costas.
Uma sereia!
Pensei, mas logo desfiz a ideia, pois abaixo dos cabelos, seguindo o contorno
de um corpo cheio, bem definido, descobri a forma de duas pernas. Sereias não
têm pernas! Saíam de uma túnica que esvoaçava ao vento, e que deixava
adivinhar os seus contornos bem delineados, bem-feitas, deliciosamente
torneadas como que trabalhadas por um experiente escultor.
Os pés, meio
enterrados na areia, eram finos, proporcionais ao belo corpo que sustentavam,
tendões bem delineados, de dedos delicados e bem cuidados.
Eu
conheço-te! És tu! Exclamei estupefacto pela repentina aparição.
Então, já
mais habituado à luz solar, vi finalmente teu rosto!
Esse rosto
que me habituei a amar, lindo, com teus traços que me encantam.
Teus olhos,
que eu sei castanhos, emitiam um brilho de felicidade que pedia meças ao brilho
do Sol.
Na tua boca,
esse sorriso que tu sabes que me deixa extasiado, onde brilham dentes alvos
como marfim.
Teu pescoço,
teus ombros, teus seios, tudo se me revelava finalmente, dando-me a certeza que
eras tu que ali estavas.
És tu! Exclamei
de novo.
Não falaste,
pois os sonhos não falam.
Estendeste-me
a tua delicada mão, que eu apertei, e ergueste-me da cama de areia em que eu
estava prostrado.
Sem deixares
de me olhar, recuaste, entrando no mar.
Segui-te!
Sim,
segui-te, pois eu te sigo e seguirei toda a vida, confiando-a em tuas
mãos!
Entramos, e
caminhamos sobre as águas, qual milagre repetido, e de repente levantamos voo
em direção ao Céu.
Onde me
levas? Perguntei-te, sorrindo.
Apontaste-me
lá ao longe, o nosso destino.
Sim,
disse-te, Sim!
Sei que
contigo e só contigo estarei no Paraíso.
E fomos,
levados pelo vento e pelos nossos sonhos, ficar num paraíso por ti criado, onde
vivemos felizes toda a eternidade.
Para ti,
Maria Aparecida Sandes

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