quarta-feira, 26 de março de 2014

O UNICÓRNIO VOADOR

O abismo estava mesmo a meus pés.
O Sol nascente projectava a minha sombra sobra a falésia e prologava-a no mar.
Esperava a sua chegada.
Tínhamos combinado nessa noite, no meio de sonhos misturados de pesadelos, esse encontro.
Ele me levaria para lá do mar, para o meu destino.
Ah, esse destino que eu tanto desejava encontrar, essa promessa de amor tantas vezes repetida, reafirmada, jurada.
A paga pelo transporte era cara, muito cara: abdicar de tudo que eu de mais valor tinha, de uma vida construída a custo, mas desfeita num piscar de olhos maligno. Afinal, uma vida que tinha de deixar de existir, por troca com outra, cheia de promessas amor, felicidade, no fundo aquilo que buscava.
Mas aceitei pagar.
E ali estava, disposto a pagar o tributo para reviver, para recomeçar tudo de novo.
Uma mancha ao fundo se destaca, pairando no céu por sobre as nuvens, fazendo delas o seu tapete voador, a sua estrada.
Branco como a neve. A sua haste como marfim, emergindo da cabeça poderosa. As asas enormes, plenas de poder, força, energia, moviam o ar que as rodeava, fazendo com que seu corpo esbelto, esguio, maravilhoso se aproximasse de mim.
Parou a meu lado. Cheirou-me, reconhecendo-me.
A sua voz poderosa fez-se ouvir sobre o murmurar das ondas ao fundo:
"És tu que queres trocar o que tens à muito, certo, sólido, pela incerteza de um olhar?
És tu quem quer acreditar em ilusões? Em palavras ditas ao vento, em imagens de espelhos retorcidos?
És tu que queres deixar almas torturadas na busca de sonhos?
Se és, paga agora o preço e monta no meu dorso, estou pronto para te levar a esse mundo de sonho que construíste e escolheste.
Mas, tens um instante, um instante apenas para decidir entre a ilusão, a incerteza, o sonho, e a realidade que é a tua. Mas lembra-te que é uma viagem sem retorno, uma troca que não pode ser desfeita, nunca mais.
O que pensas encontrar ali, no outro lado do teu destino? A felicidade? Oh, tonto, cego que não quer ver, instrumento de ilusão. Antes de subires, olha à tua volta, olha aqueles espíritos de mãos estendidas, cheias de dor pelo teu abandono, mas com os corações abertos para ti, com a luz do verdadeiro amor brilhando com a intensidade do fogo que lhes queima as veias, que tu ateaste e teimas em não querer apagar, consumindo-lhes as entranhas.
Decide agora, já!
Sobe neste instante e pagarás o tributo ou fica onde estás e nosso acordo fica anulado".
Estendi a mão para o dorso do magnifico animal, tremendo ante a compreensão do que me era exigido.
Um sopro quente veio me acariciar as costas, chamando-me de volta à realidade dos fogos que, por trás de mim ardiam com a cor do desespero.
Hesitei.
Retirei  a mão.
Então compreendi.
Dei um passo em direcção ao abismo que me chamava, com promessas de descanso e esquecimento de todos os meus problemas.
O Unicórnio, cumprindo sua ameaça, levantou voo sozinho, escondendo-se à frente do Sol que já brilhava no alto, encandeando os meus olhos e a minha dor.
O chamamento do abismo....
"Só mais um passo e descansa, vem, vem." Dizia ele numa voz sussurrante, calmante, inebriante de sentidos e de dor.
Levantei o pé para dar o ultimo passo.





1 comentário:

  1. O amor que ofereci sempre foi e é verdadeiro, só que com palavras ... fui por vezes atingida nunca jamais deixarei de lhe amar.

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